segunda-feira, 7 de maio de 2012

Couro de peixe: essa ideia vai vestir você!


Na Amazônia, couro n’água é o desperdício das peles descartadas após a limpeza das 183 mil toneladas de pescado para comercialização. Isso, sem contar tudo o que é consumido pelos Amazônidas e não entra nas estatísticas da economia formal, lembrando que o consumo per capita do Estado do Amazonas é o mais alto do Brasil: 30 quilos de peixe por habitante por ano. No Amapá a média é de 9 kg/hab/ano, enquanto a média nacional é de apenas 4 kg/hab/ano. Ou seja, é mesmo muita pele jogada nos rios, só para alimentar piranhas.

A possibilidade de transformar todo esse resíduo em produto motivou um grupo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) a desenvolver uma tecnologia de curtimento do couro de alguns peixes para uso na indústria de moda, bolsas, calçados e acessórios.

Experimentou-se trabalhar com peles de peixes regionais grandes – como pirarucu, pirarara, tambaqui, surubim, tucunaré, aruanã – e conseguiu obter couros diferenciados: resistentes, macios, fáceis de tingir e com texturas exclusivas. Cada peixe tem seu nicho de mercado: o surubim tem manchas e pintas que conseguimos manter no couro; a pirarara dá um couro tão resistente quanto o do boi e o pirarucu tem uma malha muito diferente, resultante do processo adotado para a retirada das escamas. Mas, entre todos, a aruanã (Osteoglossum bissirosum) é a melhor promessa de mercado, pois a textura é semelhante à do pirarucu e já existe uma indústria estabelecida de filés que poderia fornecer as peles de forma regular.

Atualmente, essa indústria abate cerca de 500 mil exemplares por safra, entre agosto e novembro, só em Manaus. As peles são todas descartadas. Se fossem curtidas, teríamos um milhão de peles (2 peças por peixe) de alta qualidade, próprias para confecção de roupas, inclusive. O uso em calçados ainda depende de mais estudos e testes de resistência. Uma das vantagens dos peixes amazônicos em relação aos peixes do Sul e Sudeste é o tamanho: uma pele de aruanã chega a ter uma área útil de 25 centímetros por um metro, enquanto a do gigante pirarucu alcança 1,20 metro por 1,60 metro.

O primeiro cuidado para conseguir uma pele com tanto aproveitamento é mudar a forma de tirar as escamas e o filé, pois as maneiras tradicionais ferem muito a pele. No INPA, diversos tipos de corte foram testados e a equipe já ajustou um padrão para cada espécie de peixe.

O segundo cuidado é com a conservação da pele. Testou-se o envio das peles secas, salgadas e congeladas e só tivemos problemas com as secas, as salgadas ou congeladas aguentam bem o transporte. Porém o ideal seria instalar curtumes em diversos pontos da Amazônia, de forma que as peles fossem processadas nas localidades de onde vem o pescado, agregando qualidade ao produto e assegurando mais renda ao produtor.

Nesses curtumes modernos, os restos de carne e as escamas seriam retirados da pele com a ajuda de enzimas e com uma sucessão de processos também aperfeiçoados. A pesquisa foi iniciada ainda no final dos anos 1980, mas os maiores avanços foram obtidos nos últimos 3 anos.

Agora o INPA cuida da difusão dessas tecnologias desenvolvidas, com palestras em diversas localidades ao longo dos rios Solimões e Negro, em defesa das fábricas ribeirinhas de couro d’água – como é popularmente chamada a pele curtida de peixe. Também está prestes a substituir um velho laboratório por uma fábrica-piloto, incubada no INPA, com recursos da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), no valor de R$ 2 milhões. Com os equipamentos apropriados para curtir e amaciar as peles dos peixes, ele espera simplificar o curtimento e obter couros de alta qualidade.

A fábrica-modelo também terá um sistema de contenção e tratamento de efluentes para evitar que os químicos utilizados vazem para os rios. Mesmo que a ideia seja trabalhar, futuramente, com corantes naturais e com a redução de químicos de curtimento é de vital importância não deixar margem para a troca de um tipo de poluição (as peles jogadas nos rios) por outro (os dejetos de curtumes).

Alguns estilistas badalados já estão de olho no potencial das peles de peixe no mundo da moda. Agora é apostar na capacidade da Amazônia transformar o couro n’água num couro d’água de alto padrão!

PlanetaSustentável

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