sexta-feira, 7 de junho de 2013

As raças brasileiras de cães

A cinofilia (forte interesse, afinidade ou entusiasmo por cães) foi criada no século 19 na Inglaterra, mas o Brasil já pode dizer que contribui com pelo menos nove raças de origem legitimamente brasileira. Elas mesmas: fila brasileiro, terrier brasileiro (fox paulistinha), dogue brasileiro, ovelheiro gaúcho, griffon barbudo, buldogue campeiro, veadeiro pampeano, rastreador brasileiro e podengo crioulo. Embora apenas três tenham até agora reconhecimento internacional.

Fila brasileiro


Com trocadilho e tudo, quem puxa a "fila" das raças caninas brazucas é este imponente, corajoso e fiel cão de guarda e boiadeiro, a mais famosa raça brasileira e a segunda a ser reconhecida oficialmente (em 1968, logo após o rastreador brasileiro) pela FCI (Federação Cinológica Internacional), que tem sede na Bélgica e exige detalhes como ausência ou controle de problemas genéticos e quantidade mínima de exemplares homogêneos sem parentesco próximo.

Resultante do cruzamento de raças como mastifes, buldogues e bloodhounds trazidas pelos primeiros colonizadores e ocupantes portugueses e holandeses, o fila sempre ajudou muito na travessia de florestas cerradas e virgens e na guarda e condução das propriedades e rebanhos, inclusive recuperando reses desgarradas. E ganhou até uma campanha de marketing informal nos anos 1980, quando apareceu por toda parte a pichação "Cão Fila Km 26" — referindo-se a um canil da Grande São Paulo (na Estrada do Alvarenga) especializado na raça.

O fila chegou a ter fama exagerada de cão feroz e perigoso, comparável à que os pobres pitbull e rottweiller enfrentaram mais tarde. Mas hoje se sabe que o risco apresentado por um canino depende de sua criação.

Afinal, por que o nome "fila"? Nada a ver com aquelas amadas aglomerações ordeiras, mas vem do verbo "filar", derivado de "filhar" e que significa "agarrar com firmeza, segurar com os dentes"; a expressão "cão de filhar" já era comum no século 19; "filar" significa também, claro, "pedir de graça", mas isso é outra história.

Terrier brasileiro


Os cães terriers são tão queridos quanto confundidos. Assim como já vi o cachorrinho da gravadora RCA ser descrito como sendo quatro tipos diferentes de Terrier, há dúvida também sobre a origem do terrier brasileiro, cujos ancestrais são terriers não especificados (podem ter sido foxes ou jack russells) que trabalhavam como caçadores de ratos em navios mercantes vindos da Europa, principalmente a Inglaterra, desde o século 19. A hipótese do cruzamento que originou a raça ter incluído o fox terrier explica o fato de nosso terrier brasileiro ser chamado também de fox paulistinha. O fato é o padrão da raça se fixou em 1920 e ela foi a terceira a ser aceita pela rigorosa FCI, em 1996.

E o terrier brasileiro continua se dando bem não só como guardião de mercadorias num país cada vez mais industrializado, mas também auxiliar na guarda e controle dos rebanhos nos campos — e seu temperamento ativo e baixa agressividade o fazem campeão na companhia de crianças e "dog shows". Mas, como quase todo artista, gosta de ser independente e precisa ser treinado com decisão.

Rastreador brasileiro


Está aí uma raça que merece um belo filme. Seu próprio nome diz para que ela foi criada: auxiliar na caça de animais, especialmente porcos do mato e onças, detectando-lhes a presença, acuando-as para serem abatidas mais facilmente e inclusive alertando o dono ou o caçador com latidos — daí ser conhecido também como "urrador". Sua gênese é bem documentada, criado pelo gaúcho Oswaldo Aranha Filho (sim, seu pai foi o famoso político), a partir de cruzamentos de raças como foxhound americano, black and tan coonhound, petit bleu de Gascogne, black and tan hound inglês, bluetick hound americano e até nosso veadeiro pampeano.

O rastreador brasileiro foi concebido nos anos 1950 e a aceitação da FCI até chegou rápido, em 1967. Mas, infelizmente, em 1973 todos os exemplares do canil de Aranha Filho — único a desenvolver e comercializar a raça — faleceram devido a uma epidemia de piriplasmose trazida por carrapatos e intoxicação por ter um funcionário do canil aplicado inseticida em excesso. De modo que o reconhecimento da FCI foi revogado e a raça teve de ser declarada extinta.

Ou não? Aranha Filho havia doado cerca de 40 filhotes machos a caçadores e fazendeiros para teste de desempenho durante o aprimoramento do perfil. De modo que hoje temos vários descendentes de rastreador brasileiro não só no Sul, tchê, mas até na Bahia e nas Alagoas — embora conhecidos por outros nomes como cachorro onceiro, pantaneiro, americano e até urrador brasileiro. Muitos cinófilos têm esperanças de que o rastreador brasileiro volte a ser criado e reconhecido. 

Buldogue campeiro


Esse não brinca em serviço, capaz de arrastar porcos pelas orelhas e segurar um boi de meia tonelada pelo focinho. Mas, tal como seu antecessor buldogue inglês, ele brinca muito bem na hora de conviver com crianças e famílias — e, ao contrário daquele, não perdeu a disposição para guarda e auxílio na caça e rastreamento.

O buldogue campeiro surgiu nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina no século 19, e se tornou muito popular. Mas nos anos 1970 quase foi extinto, devido a cruzamentos feitos de qualquer jeito por inexperiência ou ganância para vender "buldogues campeiros diferentes". Coube ao gaúcho Ralf Schein Bender, fã desde criança do buldogue campeiro, a honra e a missão de literalmente salvar a raça, estabelecendo-se como criador dedicado à própria em 1978. Os novos buldogues eram mestiços e não conservavam mais aquelas características marcantes da raça que eu estava justamente buscando. Foi triste constatar que num período relativamente curto de tempo os cruzamentos alteraram tais qualidades.

Ovelheiro Gaúcho


Mas bah, tchê! No nome desta raça já se vê sua origem e função original, a qual ele ainda exerce com brilho, pastoreio de ovelhas e outros rebanhos. Esta raça surgiu do cruzamento não muito planejado de diversas raças usadas para cuidar de rebanhos, principalmente o border collie. O temperamento do ovelheiro gaúcho parece ser criado sob medida para cuidar de ovelhas; agressividade e ataque não são seu ponto principal, mas ele se sai muito bem como cão de alarme.

Griffon barbudo


Também conhecido como barbudinho, ainda não foi reconhecido oficialmente como raça, por não haver quem organize sua criação e reprodução — inclusive a raça está ameaçada de ser extinta como tal - , embora seja muito usada por pessoas leigas em cinofilia para companhia, caça de subsistência e pastoreio de gado e ovelhas.

Veadeiro pampeano (ou pampeiro)


Eis outra raça brasileira cujo nome não deixa dúvidas quanto ao local de nascimento e função original, embora seja conhecida também como Veadeiro Brasileiro — e suas raças matrizes sejam um pequeno mistério. O veadeiro pampeano tem temperamento mais tranquilo que o de outras raças caçadoras, pois não costuma trabalhar sozinho e sim em duplas ou matilhas, convivendo bem com outros cães, e é também excelente cão de companhia para humanos.

Dogue brasileiro


Além de seus grandes méritos como cão de guarda e estimação e a agilidade apesar do grande porte — segundo muitos, superior a ilustres raças estrangeiras como o rottweiller — , esta raça é o sonho de todo pesquisador: dela sabemos a data de surgimento, 1978, e o nome do "pai", Pedro Dantas. Outra distinção do dogue brasileiro é ter sido a primeira raça canina brasílica nascida em ambiente urbano, longe das plantações e rebanhos de seus colegas peludos. O dogue brasileiro só passou por uma grande mudança: o nome, originalmente bull boxer, refletindo as raças que o originaram, o boxer e o bull terrier. E a raça está cada vez mais próxima de ganhar o reconhecimento da exigente FCI, faltando apenas comprovar existência de oito linhagens homogêneas vindas de pelo menos dois machos e seis fêmeas, com cada uma destas linhagens sem pais, avós e bisavós em comum com as outras sete. 

Podengo crioulo

Afinal, qual a origem da palavra "podengo"? Ainda não se sabe, exceto que já era usada em Portugal no século 16 para designar cão caçador que age em matilha. O fato é que o podengo crioulo existe em todas as regiões do Brasil e seu nome varia de acordo: aracambé, pé duro, orelhudo, coelheiro, paqueiro (de "pack hunting", caça em matilha, ou de "paca"?), tatuzeiro, rateiro e até terrier de minas.

Os biólogos Marcelo Ribeiro dos Santos e Tiago Abreu Barbosa da Silva perceberam que a raça estava em risco de extinção e se empenham no resgate e reconhecimento oficial do podengo; eles conseguiram estabelecer o padrão da raça, que ainda aguarda aprovação e reconhecimento oficial do CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia).


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dia do Meio Ambiente: temos o que comemorar?

No que depender do lento avanço nas negociações internacionais realizadas em torno dos principais problemas ambientais enfrentados pela humanidade, não há muito para se comemorar no Dia do Meio Ambiente, que será celebrado hoje (5) em todo o mundo. Mais uma vez, a data encontra os governos dos países industrializados concentrados em superar sua crise econômica – que já dura meia década – e pouco afeitos a qualquer concessão ambiental que implique em novos gastos e investimentos. Mais uma vez, a paralisia parece ser a tônica dos esforços multilaterais que não conseguem fazer avançar as três principais convenções ambientais firmadas no âmbito da ONU: Mudanças Climáticas, Diversidade Biológica e Desertificação.

Publicado na semana passada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o documento “Perspectivas do Meio Ambiente Mundial” revela que somente quatro entre os 90 objetivos ambientais mais importantes listados pela ONU conseguiram “avanços significativos” nos últimos anos, enquanto 24 objetivos lograram “pouco ou nenhum avanço” e oito objetivos sofreram “deterioração”. Segundo o estudo, outros 40 objetivos globais conseguiram “algum avanço”.

Os quatro objetivos que, segundo o Pnuma, conseguiram “avanços significativos” são: eliminação da produção e uso de substâncias que prejudiquem a camada de ozônio, melhora do acesso ao abastecimento de água, fomento da investigação para reduzir a contaminação do ecossistema marinho e eliminação do chumbo da gasolina. A íntegra do estudo pode ser vista na página do Pnuma na internet.

Principal bandeira da luta global pela preservação ambiental, o combate ao aquecimento global é um dos objetivos onde se conseguiu “pouco ou nenhum avanço”, segundo a avaliação do Pnuma. Momentos de negociação cruciais como a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável da ONU, Rio+20, realizada há um ano no Brasil, ou a 18ª Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas (COP-18, na sigla em inglês), realizada em Doha, no Catar, há seis meses, foram desperdiçados pelas divergências relativas à adoção de metas obrigatórias de redução das emissões de gases de efeito estufa ou à definição de mecanismos de incentivo financeiro para que os países pobres se preparem para enfrentar os efeitos do aquecimento planetário.

Começou segunda-feira (3) em Bonn (Alemanha) mais uma reunião preparatória à COP-19, que se realizará no mês de dezembro em Varsóvia (Polônia) e terá como missão criar uma segunda etapa para o Protocolo de Kyoto, que expirou este ano sem ter conseguido totalmente seus objetivos. Outra meta é avançar na elaboração da Plataforma de Durban, novo tratado global que entrará em vigor em 2015 e, pelo menos nas intenções até aqui manifestadas pelos governos, reunirá países ricos e em desenvolvimento em torno de metas obrigatórias de redução das emissões.

Biodiversidade

O quadro não é mais animador no que diz respeito à biodiversidade. Realizada há nove meses em Hyderabad (Índia), a última COP da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-11) também não obteve avanços graças à falta de consenso sobre quem vai financiar os programas de proteção da fauna e da flora. Sobre a perda da biodiversidade, a ONU sequer dispõe de dados suficientes para a apresentação de um diagnóstico completo, embora diversos estudos realizados por alguns governos nacionais apontem para a extinção ou a drástica diminuição populacional de milhares de espécies em todos os continentes. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), um novo dado alarmante é que a perda da biodiversidade já chega a 22% também entre os animais domesticados pelo homem, como gado, cabras, ovelhas, cavalos e até mesmo camelos.

Para ao menos saber com mais precisão a quantas anda a perda da biodiversidade em todo o planeta, a ONU criou há dois anos a Plataforma Intergovernamental para a Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES, na sigla em inglês), que reúne especialistas de diversos países. O novo fórum funciona nos mesmos moldes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que ganhou fama ao revelar os detalhes alarmantes do processo de aquecimento global em curso. O primeiro relatório do IPBES será divulgado durante a COP-12, prevista para acontecer no ano que vem em Seul, na Coreia do Sul.

No que diz respeito à biodiversidade, as necessidades mais urgentes reconhecidas pela ONU estão estabelecidas em dois documentos. As Metas de Aichi são um conjunto de 20 objetivos de longo prazo voltados à redução da perda da biodiversidade que devem ser alcançados até 2020. As metas foram organizadas em cinco temas: ataque às causas básicas da perda de recursos naturais, promoção do uso sustentável dos recursos, fomento da diversidade genética, aumento da proteção de florestas e aumento da proteção dos ambientes marinhos.

Outro instrumento da CDB é o Protocolo de Nagoya, que estabelece regras para o acesso a recursos genéticos – como princípios ativos encontrados em animais ou plantas tropicais usadas em medicamentos e cosméticos – e formas de compartilhar os benefícios garantidos por sua exploração comercial entre empresas, povos indígenas e governos. No entanto, apenas cinco países ratificaram o documento até agora, sendo que são necessárias 92 assinaturas para torná-lo vigente. A meta da ONU é que o Protocolo de Nagoya esteja em pleno funcionamento até 2015. O Brasil, que ainda não assinou o documento, se comprometeu a fazê-lo, mas ainda depende do aval do Congresso Nacional, onde o protocolo aguarda para ser analisado desde o final do ano passado.

Desertificação

Já a próxima Conferência das Partes da Convenção de Combate à Desertificação (COP-11) será realizada em setembro em Windhoek, na Namíbia. Deter o avanço das áreas áridas e semi-áridas do planeta, segundo o estudo do Pnuma, foi um dos objetivos da ONU que conseguiu “pouco ou nenhum avanço”, sobretudo no continente africano. Nesse caso, mais uma vez, os países não chegam a um consenso sobre como se dará o financiamento das ações de combate à desertificação.

O Brasil, assim como outros países emergentes, defende que seja estabelecido um plano de cooperação técnica que possa ajudar os países pobres, maiores afetados pela desertificação, a enfrentar o problema. Na COP-10, realizada em Changwon (Coréia do Sul), o governo brasileiro apresentou projetos de manejo florestal e de agroecologia desenvolvidos na Caatinga para enfrentar à desertificação.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

O extermínio da guerrilha. E da floresta


Em pouco mais de um semestre de 1972 o Exército brasileiro mobilizou 2,5 mil militares para combater menos de 60 guerrilheiros em uma área com menos de 10 mil quilômetros quadrados em torno da mitológica Serra das Andorinhas, no Araguaia paraense, na divisa com Goiás (hoje Tocantins).

Os militantes do Partido Comunista do Brasil começaram a migrar para a região três anos antes. Sua intenção era instalar um foco de resistência no local, como os seguidores de Fidel Castro haviam feito em Cuba. Protegido pela floresta densa e um terreno acidentado, o foco guerrilheiro devia crescer até fomentar uma guerra revolucionária contra a ditadura militar, até derrubá-la do poder, que exercia plenamente.

Três grupamentos foram estabelecidos, com 31, 23 e 15 integrantes. Quando o Exército os descobriu e começou a enfrentá-los, não havia dúvida alguma sobre a desproporção de meios. O principal comandante da operação, o general Antonio Bandeira, reconheceu que os guerrilheiros “utilizavam armas obsoletas e sofriam grande carência de munição”. A primeira força militar a caçá-los tinha 380 homens, dos quais 130 fuzileiros navais, tropa de elite.

Em três ou quatro meses o foco guerrilheiro perdera quase 20% do seu efetivo, formado principalmente por jovens, a maioria deles estudantes universitários, e de pouco traquejo para combates. Quando veio a ordem de acabar com tudo, sem deixar sobreviventes, a matança foi contínua e rápida.

O general Bandeira disse, em seu famoso relatório, agora acessível na íntegra, que a “guerra dos terroristas” se transformara em “exercício de adestramento” para seus comandados. Antes de 1972 acabar, porém, o Exército colocou alternadamente 2,5 mil homens no Araguaia, sendo dois mil da 3ª brigada.

Jargões e argumentos ideológicos à parte, o que a operação antiguerrilha demonstra, agora que os documentos oficiais começam a ser divulgados, é a sua incompetência operacional. Incompetência que não se deve tão somente – e nem principalmente – à falta de adestramento para atuar, mas ao condicionamento que sobre a atividade militar exerceu a doutrina da segurança nacional. Doutrina que transferiu seu eixo da ameaça externa à guerra contra o inimigo interno, os brasileiros adversários do regime.

Sem ela, com seu exagero na avaliação do inimigo e na antinomia feroz que impôs aos seus subordinados (o guerrilheiro era o terrorista, congenitamente mau, sem entranhas humanas, um animal a abater e liquidar), o Exército teria eliminado rapidamente o foco e preso seus integrantes, sem descer aos paroxismos de violência e selvageria. Seria uma história aberta, não um tema proibido, ao qual foram impostos anátemas implacáveis.

Reconhecer a fraqueza do inimigo e vencê-lo com o menor desgaste não interessava. Tanto ao comandante militar, que precisava adestrar a tropa em combate real (e não apenas a simulação, a regra nos quartéis, crescentemente politizados e sujeitos aos jogos de gabinete dos seus chefes), quanto a outros aproveitadores, nos negócios ou na política.

A revisão da história da guerrilha do Araguaia é, portanto, uma necessidade para a sociedade brasileira. Um país democrático não conviveria com os absurdos praticados nesse período, fruto do desvio de função das forças armadas, ou do seu exercício não só abusivo, mas também irracional e incompetente.

Um episódio novo surgiu na revisão que do tema faz a Comissão Nacional da Verdade. Trata-se de um Relatório de Apoio Aéreo, produzido em novembro de 1972, paralelamente ao documento do general Bandeira, pelo tenente-coronel Flarys Guedes Henriques de Araújo (que, já na reserva, foi secretário de segurança pública do Pará e do Ceará, conforme era praxe na época: fazer circular os oficiais de informação e combate).

Ele diz nesse relatório que as missões pretendidas pelo Comando Militar do Planalto, supervisor final das ações, “foram executadas no decorrer das operações; há a acrescentar àquele repertório o bombardeio de três áreas com bombas napalm e de emprego geral”.

É a primeira confirmação oficial da utilização desse produto, combinação de gasolina e resina que funcionava como poderoso desfolhante químico. Aplicado largamente pelos Estados Unidos na guerra do Vietnam, o napalm se revelou também um terrível agente de doenças humanas, incluindo o câncer (o que levou à sua proibição e recolhimento, mas não completo, como se veria).

O documentário americano Corações e Mentes provocou horror mundial ao mostrar crianças vietnamitas desesperadas já sem suas roupas e com suas peles queimando pela ação desse fósforo de alta combustão. Mesmo os militares americanos, que tiveram contato com o produto, vieram a morrer ou sofreram graves doenças.

Falava-se e às vezes surgiam denúncias sobre o uso do napalm por fazendeiros e outros pioneiros que abriam áreas novas na Amazônia nessa mesma época. A ordem em vigor era para botar abaixo a floresta, substituindo-a por pastagens e cultivos agrícolas, estimulados por outro combustível poderoso: os incentivos fiscais da Sudam. Com napalm, a árvore perdia suas folhas rapidamente e era mais fácil de derrubar ou queimar.

Até hoje suspeito que o incêndio ateado pela Volkswagen na sua enorme fazenda de quase 140 mil hectares em Santana do Araguaia, ao sul da área guerrilheira (e quase 50% maior do que ela), teve efeito rápido pela aplicação do napalm. Por irônico, a investigação foi interrompida e sufocada pela denúncia de que o incêndio atingia um milhão de hectares. Como se alastrara por “apenas” 10 mil hectares (ou 100 quilômetros quadrados), 1% do que diziam (com todas as boas intenções que podem levar ao inferno) os denunciantes, a opinião pública se desinteressou. E quem tinha motivos para temer, se aliviou.

Alguns anos depois as denúncias apontaram para outro produto químico perigoso. Desta vez, o Tordon, produzido pela Dow Chemical (da qual foi dirigente no Brasil o general Golbery do Couto e Silva, o “déspota esclarecido” do golpe militar), teria sido utilizado para “limpar” a área do reservatório da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins. O fato também não foi apurado.

Se documentos como os da guerrilha forem revelados, talvez a necessária reconstituição da história possa ser realizada. Se o for, acrescentará mais um exemplo ao tipo de concepção que levou à ocupação definitiva e à crescente destruição da Amazônia, tendo dois inimigos a destruir: o rebelde e a floresta.

Lúcio Flávio Pinto, 62, é jornalista desde 1966. Editor do "Jornal Pessoal", publicação quinzenal que circula em Belém do Pará desde 1987. http://br.noticias.yahoo.com

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Paisagens espetaculares


1. Campos de tulipas, Holanda


2. Túnel do Amor, Ucrânia


3. Salar de Uyuni, Bolívia


4. Hitachi Seaside Park, Japão


5. Caverna de gelo em Mendenhall, Alasca (EUA)


6. Floresta de Bambu, Japão


7. Túnel Cherry Blossom, Alemanha


8. Praia Vermelha, China


9. Túnel de glicínias no jardim de Kawachi Fuji, Japão


10. Floresta Negra, Alemanha


11. Caverna Son Doong, Vietnã


12. Monte Tianzi, China


13. Antelope Canyon, EUA


14. Campos rosados de Takinoue, Japão


15. Lago Hillier, Austrália


16. Campos de lavanda, França e Reino Unido


17. Monte Roraima, América do Sul


18. Floração da colza, China


19. Parque Geológico de Zhangye Danxia, China


20. Lago Retba, Senegal


http://www.megacurioso.com.br

quinta-feira, 9 de maio de 2013

As hidrelétricas e os bilhões


A obra da linha de transmissão de energia da hidrelétrica de Tucuruí para Macapá e Manaus, com 1,8 mil quilômetros de extensão, a maior em construção no Brasil, foi licitada em 2008. Devia custar 1,8 bilhão de reais. Calcula-se que sairá por R$ 3 bilhões – ou mais. A elevação seria em função da imponderabilidade do “fator amazônico”.

Por ser ainda mal conhecida, ou mesmo desconhecida, a região reserva surpresas – geralmente desagradáveis – aos que penetram em suas áreas ainda isoladas. O elemento de risco seria muito maior do que nas outras regiões do país, já de maior domínio. Além disso, o reajuste é ocasionado pelo atraso na liberação das licenças ambientais por parte do governo federal, que é o dono da concessão do serviço.

O “reequilíbrio econômico de contrato” foi solicitado pela multinacional espanhola Isolux Corsán, que venceu dois dos três lotes do mais recente “linhão” de Tucuruí, através do qual o Amapá e o Amazonas se ligarão ao sistema integrado nacional de energia. O escritório de consultoria da ex-ministra da Casa Civil de Lula, Erenice Guerra, foi contratado para ajudar a resolver o impasse junto à Aneel, a Agência Nacional de Energia Elétrica, que controla esse contrato.

O jornal O Globo sugeriu que foi mais do que competência profissional que propiciou ao escritório marcar audiência, em janeiro, do então presidente mundial do grupo Isolux Corsán, Antonio Portela Alvarez, com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, e com a presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto.

Erenice subiu ao governo do PT com Dilma, quando a futura presidente ocupou o mesmo ministério agora nas mãos do velho político maranhense. Também acompanhou a ida de Dilma para à Casa Civil, e a substituiu quando a chefe se tornou candidata à sucessão de Lula. Caiu em meio a um escândalo sobre tráfico de influência, quando caminhava para o topo do poder federal.

Caiu na administração pública, mas se recuperou na privada. Obteve mais uma representação de muito peso para o seu movimentado escritório, também sobre uma obra amazônica. Defende os interesses de outra multinacional, a francesa GDF Suez, que possui 60% das ações da Energia Sustentável do Brasil.

A ESBR constrói a hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, obra de mais de 15 bilhões de reais. Litiga com a Santo Antônio Energia, responsável por outra usina do mesmo porte e do mesmo valor, rio abaixo. Estão em disputa a definição sobre a operação do Madeira e compensação de R$ 2 bilhões.

A Santo Antônio elevou o nível do seu reservatório, Jura que essa providência beneficia as duas empresas, com ganhos de geração de energia para ambas, proporcionada por maior volume de água estocada. A Jirau discorda e diz que vai perder. O impacto seria do valor que cobra.

Mas a ESBR preferia impedir que o reservatório ficasse mais alto. A elevação precisaria ser feita até o início do segundo semestre deste ano para ser viável. Sem decisão, o nível do reservatório não mudaria, o que seria o desejo da multinacional francesa.

A Amazônia, como se vê, está no centro de mais essa disputa por poder e cifrões. A construção de grandes hidrelétricas em série, as que estão em andamento no Madeira e no Xingu, e as projetadas para o Tapajós e o Tocantins/Araguaia, só pode ser plenamente entendida nessa cercadura de muitos bilhões de reais. Só nos dois rios em que se levantam as usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, a movimentação é de R$ 60 bilhões.

Esse é o principal combustível para as ações de bastidores, bem à distância das celeumas públicas sobre os aspectos mais visíveis dessas obras, os impactos sociais e ambientais. Nos gabinetes pelos quais Erenice Guerra e iguais transitam com desenvoltura, o que está na mesa de negociação é matéria muito mais sonante.

Lúcio Flávio – Cartas da Amazônia - http://br.noticias.yahoo.com

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Canela: a árvore de múltiplas utilidades


A canela é uma árvore originária do Ceilão, da Birmânia e da Índia e conhecida há mais de 2500 anos a.C. pelos chineses. A canela era a especiaria mais procurada na Europa e seu comércio era muito lucrativo. O monopólio do comércio da canela esteve nas mãos dos portugueses no século XVI, passou para os holandeses, com a Companhia das Índias Orientais, quando esses expulsaram em 1656 os portugueses do Ceilão, e depois, passou para as mãos dos ingleses, a partir de 1796, quando esses ocuparam essa ilha.



As canelas são algumas das espécies mais antigas conhecidas pela humanidade. A mais difundida é a Cinnamomum zeylanicum, originária do Ceilão, atual Sri Lanka. Outras, entretanto, como a Cássia (Cinnamomum cassia), chamada de falsa-canela e conhecida como canela-da-China, também têm importância econômica. Esta espécie é uma Laurácea arbórea muito cultivada nas províncias do sudoeste da China. As partes mais úteis das canelas são o córtex dessecado e o óleo. O óleo é obtido das folhas por destilação, por arraste a vapor. Seu principal constituinte é o aldeído cinâmico, cujo teor pode ser superior a 80%.

Considerada símbolo da sabedoria, a canela foi usada na Antiguidade pelos gregos, romanos e hebreus para aromatizar o vinho e com fins religiosos na Índia e na China. Entre as muitas histórias da canela, conta-se que o imperador Nero depois de matar com um pontapé sua esposa Popea, tomado de remorsos ordenou a construção de uma enorme pira para cremá-la. Nessa pira foi queimada uma quantidade de canela suficiente para o consumo, durante 1 ano, de toda a cidade de Roma! Mesmo sem a importância que teve no passado e não sendo mais motivo de lutas entre os povos, a canela continua indispensável, como tempero na culinária moderna.

Cinnamomum zeylanicum cresce bem em solo brasileiro, onde já foi bem cultivada no passado, tendo sido introduzida pelos jesuítas. A canela é mencionada até em passagens bíblicas. Simbolicamente, a canela é uma especiaria ligada ao amor, sendo empregada muitas vezes como ingrediente para perfumes mágicos e poções para conquistar a pessoa amada. Há quem acredite que ela atrai o sucesso nos negócios, trazendo sorte e determinação para a resolução de problemas.

Ficha da planta

Família: Lauráceas
Origem: Ceilão, Birmânia, Índia
Outros nomes populares: caneleira, caneleira-da-índia, caneleira-de-ceilão, cinamomo e pau-canela. 
Outros Idiomas: cinnamomi (latim), cinnamon (inglês), canela (espanhol), cannelle (francês), cannella (italiano) e zimt (alemão).

Características: A caneleira é uma árvore que requer cerca de 1.300 mm de chuva por ano e temperatura média anual de superior a 21° C. A casca dos ramos é comercializada em rama (pau), raspas e pó. A caneleira é utilizada na culinária e na fabricação de bebidas, medicamentos, perfumes e sabonetes. Outras espécies do gênero Cinnamomum e Cassia também produzem canela. A canela é uma árvore de ciclo perene e que atinge até 8 a 9 metros de altura. O tronco alcança cerca de 35 centímetros de diâmetro.

As folhas são coriáceas, lanceoladas, com nervuras na base, brilhantes e lisas na parte superior e verde-claras e finamente reticuladas na parte inferior. As flores são de coloração amarela ou esverdeada, numerosas e bem pequenas, agrupadas em cachos ramificados.

Composição Química: acetato de eugenol, ácido cinâmico, açúcares, aldeído benzênico, aldeído cinâmico, aldeído cumínico, benzonato de benzil, cimeno, cineol, elegeno, eugenol, felandreno, furol, goma, linalol, metilacetona, mucilagem, oxalato de cálcio, pineno, resina, sacarose, tanino e vanilina.

Partes Usadas: Óleo essencial e casca desidratada.

Propriedades Medicinais: Adstringente, afrodisíaca, anti-séptica, aperiente, aromática, carminativa, digestiva, estimulante, hipertensora, sedativa, tônica e vasodilatadora.

Cultivo e Conservação

Clima indicado: quente, com temperatura constante e chuvoso.
Exposição solar: Plena
Propagação e formação de mudas: a multiplicação é feita por meio de sementes, originárias de plantas produtivas, vigorosas e sadias. A semeadura é direta em saquinhos de polietileno após a retirada da polpa, a 1 cm de profundidade, preenchidos com terra de boa qualidade.
Solo indicado: textura arenosa, leve e bem drenado.
Espaçamento: 3,5 x 2,5m ;3 x 3m ou 2,5 x 2m ou mais adensado, de acordo com o manejo a ser utilizado. As covas são de 40 x 40 x40 cm, abertas e adubadas 30 a 60 dias antes do plantio.
Adubação: esterco de animal curtido, húmus ou matéria orgânica, incorporados a 60 centímetros de profundidade. 
Necessidade de água: Elevada
Proteção contra o sol: a planta necessita de proteção contra os raios solares nos primeiros meses após o plantio, o que pode ser feito com folhas de palmeiras ou outro material disponível.
Colheita da Casca: 5 anos após o plantio, quando ela naturalmente se solta do tronco (geralmente no outono).
Secagem da casca: primeiramente em local sombreado e bem ventilado por 4 a 5 dias; em seguida é exposta ao sol, não muito intenso.
Armazenamento: em recipientes de vidro bem limpos e fechados.

Usos


Culinária
: para condimentar presunto e alguns tipos de carne, no preparo de doces, pães doces, arroz-doce, bolos, tortas de frutas, cremes para pastéis e panquecas doces, frutas condimentadas, compotas, pudins e bebidas quentes como o chocolate e o café.

Cosmética: para dar brilho nos cabelos; usada em pastas dentais e óleos bronzeadores.

Saúde: Contra gases abdominais, úlceras estomacais causadas por stress, hipertensão arterial, resfriados e dores abdominais.

Contraindicações: gestantes.

Efeitos Colaterais: irritações na pele.

Fontes: http://www.jardimdeflores.com.br: Angelo C. Pinto - Instituto de Química, Universidade Federal do Rio de Janeiro e livro "Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais".

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Tetos verdes


Nem Messi, papa Francisco ou a rainha da Holanda Máxima Zorreguieta. Agora a bola da vez na Argentina é o uso de jardins suspensos. Mire-se no exemplo do país vizinho, podemos melhorar as nossas cidades.

Recentemente na Argentina foi sancionada uma lei que prédios que adotarem coberturas verdes, ou seja, plantações em seus tetos, terão abatimentos no imposto equivalente ao nosso IPTU. A lei tem como objetivo ampliar a área verde nas cidades, controlar o calor urbano e reduzir o consumo de energia elétrica com aparelhos de ar condicionado. Além disso, os prédios que começarem a construção a partir de agora serão obrigados a fazer essas áreas verdes.

No Brasil o mercado está em fase bem inicial. Alguns estados procuram incentivar a prática, mas não há uma lei que regulamente ou incentive as plantações, ao menos não em esferas federais. Entretanto, há exemplos a serem seguidos, como o Colégio Estadual Erich Walter Heine no Rio de Janeiro.

Há vários pontos positivos neste sistema de telhado verde:
- É um ótimo regulador de temperatura: reduz a temperatura no calor, criando um ambiente agradável e fresco, diminuindo o consumo de energia elétrica com ar condicionado. Nos dias frios, retém o calor;
- Retém a água da chuva: um telhado verde absorve e evapora mais água, os tratamentos de esgotos e de águas residuais são aliviadas, virando uma ótima opção para cidades grandes e com pouca vazão
- Ajuda a isolar o local de ruídos, resultando em uma ótima acústica e redução de barulhos externos
- Beleza estética;
- Valorização do imóvel;
- Durabilidade maior em comparação ao telhado comum;
- Um ambiente a mais para a casa;
- Produção de alimentos, ervas e flores, gerando condições de vida para insetos e aves.

Mas antes de você se animar com a ideia e querer fazer o seu próprio jardim, saiba que não é tão simples assim. O primeiro passo é consultar um engenheiro ou arquiteto, para saber se é viável e se a estrutura aguenta o peso que um jardim irá gerar. Em média, a estrutura deve aguentar de 80 a 250 kg /m ², dependendo do sistema que será instalado.

Como o telhado verde requer infraestrutura adequada, não basta subir em cima da casa e começar a plantar. Depois que a avaliação for feita, você pode contratar um engenheiro ou arquiteto para fazer o serviço ou empresas especializadas, algumas são a Ecotelhado e a SkyGarden. E o primeiro passo será a impermeabilização da área, utilizando manta asfáltica ou algum material similar.

Após a impermeabilização, tem início a parte estrutural do jardim, que recebe um sistema de drenagem para evitar infiltrações. Aliás, este sistema pode ser feito de diversas maneiras, desde entulho a sistemas de encanamento.

Antes da terra e vegetação, é colocada uma manta especial para evitar que as raízes danifiquem o sistema de drenagem ou a estrutura do imóvel. Aliás, normalmente são usados pequenos arbustos e grama, já por não possuírem raízes profundas.

Por fim, terra e vegetação. A partir daí é cuidar do seu teto, como um jardim comum. Lembre-se: sempre procure especialistas para a realização dos serviços, afinal, o que foi descrito nesta reportagem é o básico e cada caso é um caso, cada imóvel tem uma estrutura diferente e tem necessidades específicas.

http://br.noticias.yahoo.com
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